Demência em idosos e a exaustão familiar

Conviver com um Idoso com demência é uma experiência que transforma toda a família. Aos poucos, quem sempre foi referência passa a precisar de ajuda para tarefas simples, decisões do dia a dia e até para reconhecer quem está ao seu lado. Esse processo, além de desafiador, costuma gerar exaustão emocional, física e mental em quem cuida.

Falar sobre demência em Idosos não é apenas falar de diagnóstico. É falar de vínculos, de luto simbólico, de adaptação e de cuidado contínuo. E também de quem cuida.

Principais tipos de demência que afetam Idosos no Brasil

A demência é um termo amplo que engloba diferentes condições neurológicas progressivas. Entre as mais comuns estão a Doença de Alzheimer, a demência vascular, a demência por corpos de Lewy e a demência frontotemporal. Cada uma apresenta características próprias, mas todas têm algo em comum: afetam memória, comportamento, autonomia e relações familiares.

No Brasil, o Alzheimer é a causa mais frequente de demência em Idosos. Ele costuma se iniciar de forma silenciosa, com esquecimentos leves, dificuldades de organização e mudanças sutis de comportamento. Com o tempo, surgem alterações mais importantes, como confusão mental, dificuldade de linguagem, desorientação e perda de reconhecimento de pessoas próximas.

Quando a demência impacta toda a família

À medida que a doença avança, a família passa a assumir um papel central no cuidado. E é nesse ponto que surgem dúvidas, medos e sobrecarga.

Entre as principais preocupações familiares estão a segurança do Idoso, o uso correto das medicações, a adaptação do ambiente da casa e as mudanças de comportamento. Muitos familiares relatam dificuldade em lidar com episódios de agressividade, irritabilidade, apatia ou desconfiança, que não faziam parte da personalidade daquele Idoso no passado.

Essa mudança gera dor. É comum ouvir frases como “ele não é mais o mesmo” ou “parece outra pessoa”. Reconhecer que essas alterações fazem parte do processo da demência ajuda a reduzir a culpa e o sofrimento, mas não elimina o desgaste emocional.

Ambiente, medicação e comportamento: pontos de atenção

O cuidado com um Idoso com demência exige atenção constante a detalhes que fazem diferença no dia a dia. Um ambiente adaptado, com menos estímulos confusos, boa iluminação, rotinas previsíveis e segurança física, ajuda a reduzir agitação e risco de acidentes.

O uso correto da medicação também é fundamental. Esquecimentos, doses erradas ou interrupções podem agravar sintomas cognitivos e comportamentais. Além disso, algumas medicações precisam de ajustes ao longo do tempo, reforçando a importância do acompanhamento médico regular.

As alterações de comportamento, como agressividade ou retraimento, costumam ser um dos aspectos mais difíceis para a família. Muitas vezes, elas não representam “teimosia” ou “má vontade”, mas sim a dificuldade do cérebro em processar emoções, estímulos e frustrações.

Cuidador ou casa de repouso: qual a melhor opção?

Uma das decisões mais delicadas para a família é escolher entre manter o cuidado em casa com um cuidador ou optar por uma casa de repouso especializada. Não existe uma resposta única. A melhor escolha depende do estágio da demência, das condições clínicas do Idoso, da estrutura familiar e do nível de exaustão de quem cuida.

O cuidado domiciliar pode ser uma boa opção nos estágios iniciais, quando há suporte familiar, ambiente adequado e acompanhamento profissional. Já em fases mais avançadas, quando há risco constante, dependência total ou esgotamento da família, uma instituição especializada pode oferecer mais segurança, rotina estruturada e equipe preparada.

Tomar essa decisão não significa abandono. Significa reconhecer limites e priorizar o bem-estar de todos os envolvidos.

A exaustão familiar também precisa de cuidado

Quem cuida de um Idoso com demência frequentemente negligencia a própria Saúde. Ansiedade, depressão, insônia, culpa e sensação de solidão são comuns entre familiares cuidadores. Por isso, é essencial dizer com clareza: a família também precisa de apoio.

Buscar terapia, dividir responsabilidades, participar de grupos de apoio e contar com orientação profissional são formas legítimas de cuidado. O acompanhamento com um psiquiatra não beneficia apenas o Idoso, mas também ajuda a família a compreender o quadro, lidar com as mudanças e atravessar esse processo com mais suporte emocional.

Cuidar de alguém com demência é uma jornada longa. Ninguém deveria atravessá-la sozinho. Reconhecer a exaustão não é sinal de fraqueza. É sinal de consciência e responsabilidade.

Se você vive essa realidade, saiba que existe ajuda. Cuidar do Idoso também passa por cuidar de quem está ao lado dele todos os dias.

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Dra Natalia Soledade

Dra. Natália Soledade é médica psiquiatra formada pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (2005), com especializações práticas em psiquiatria pela Residência Médica do Complexo Hospitalar Psiquiátrico do Juquery (2007) e no Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência – SEPIA (2008).

Atende presencialmente em São Paulo e também oferece consultas online. Mãe de menino, apaixonada por viagens e jogar tênis, a Dra. Natália une experiência clínica à sensibilidade de quem valoriza cada história pessoal.

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