Desmame de antidepressivos: como fazer com segurança?

O desmame de antidepressivos é o processo de redução gradual da dose, feito de forma planejada e acompanhada por um Profissional de Saúde. Na literatura científica, esse processo é chamado de tapering.

Esse cuidado existe porque o cérebro passa por adaptações enquanto o medicamento é usado. Quando a redução acontece de forma muito rápida ou sem orientação, essas adaptações podem gerar sintomas físicos e emocionais que causam sofrimento desnecessário e confusão sobre o próprio quadro clínico.

As diretrizes internacionais recomendam que o desmame seja individualizado, respeitando o tempo de uso, a dose, o tipo de antidepressivo e a resposta de cada paciente.

Por que não é indicado parar o antidepressivo de forma abrupta

A interrupção súbita do antidepressivo pode levar à síndrome de descontinuação, uma condição bem descrita em estudos científicos.

Quando o medicamento é retirado de uma vez, o sistema nervoso pode não conseguir se reorganizar rapidamente, resultando em sintomas que muitas vezes assustam o paciente e levam à ideia de que “o problema voltou”, quando na verdade se trata de uma resposta temporária do organismo.

Parar sozinho, sem orientação, aumenta esse risco e dificulta a identificação do que realmente está acontecendo.

Sintomas mais descritos na síndrome de descontinuação

Os estudos apontam uma série de sintomas possíveis, que variam em intensidade e duração. Entre os mais comuns estão:

  • Tontura e sensação de desequilíbrio, especialmente ao levantar ou mudar de posição, o que pode interferir na rotina diária e gerar insegurança.
  • Náusea, desconforto gastrointestinal e dor de cabeça, que muitas vezes são confundidos com outras condições clínicas.
  • Alterações do sono, como dificuldade para dormir, despertares frequentes ou sonhos mais intensos do que o habitual.
  • Aumento transitório de ansiedade e irritabilidade, que pode levar a pensamentos de que o tratamento “não funcionou”.
  • Sensações neurossensoriais incomuns, como formigamento ou sensação de choque elétrico, descritas em diversos artigos.

Na maioria dos casos, esses sintomas são temporários e tendem a melhorar com ajustes no ritmo do desmame.

Desmame de antidepressivos: retirada não é o mesmo que recaída

Um dos pontos mais importantes destacados na literatura é a diferença entre sintomas de retirada e recaída do transtorno psiquiátrico.

A retirada costuma:

  • surgir pouco tempo após a redução ou interrupção do medicamento
  • apresentar sintomas físicos associados aos emocionais
  • melhorar quando o desmame é ajustado ou desacelerado

A recaída tende a:

  • ocorrer de forma mais lenta e progressiva
  • retomar padrões de pensamento e comportamento anteriores ao tratamento
  • persistir mesmo sem mudanças recentes na medicação

Por isso, conversar com o psiquiatra é fundamental para evitar decisões precipitadas, como retomar o medicamento sem necessidade ou, ao contrário, insistir na suspensão quando há sinais claros de recaída.

O que os estudos dizem sobre a melhor forma de realizar o desmame de antidepressivos

Pesquisas recentes mostram que reduzir sempre a mesma quantidade do medicamento nem sempre equivale a uma redução proporcional do efeito no cérebro.

Por isso, muitos estudos discutem o desmame hiperbólico, no qual:

  • as reduções tendem a ser menores conforme a dose vai diminuindo
  • o intervalo entre reduções pode ser ampliado
  • o processo é ajustado de acordo com os sintomas apresentados

Esse modelo busca respeitar a sensibilidade do sistema nervoso, especialmente nas fases finais do desmame, que costumam ser mais delicadas para alguns pacientes.

Fatores que influenciam o desmame de antidepressivos

A literatura científica aponta que o desmame pode exigir mais cuidado quando há:

  • Uso prolongado do antidepressivo, pois o cérebro teve mais tempo para se adaptar à medicação.
  • Doses mais elevadas, que costumam exigir reduções mais graduais.
  • Histórico de sintomas importantes em tentativas anteriores de retirada, indicando maior sensibilidade à redução.
  • Uso combinado com outros medicamentos psiquiátricos, o que torna o ajuste mais complexo.
  • Presença de outros transtornos psiquiátricos, que podem interferir na tolerância ao desmame.

Esses fatores reforçam que não existe um protocolo único válido para todas as pessoas.

A importância de conversar com o psiquiatra

Muitas pessoas sentem vontade de parar o antidepressivo, mas não conseguem expressar isso na consulta. Outras acabam suspendendo o uso por conta própria, seja por medo de efeitos colaterais, cansaço do tratamento ou sensação de melhora.

É importante saber que falar abertamente com o psiquiatra sobre o que você está sentindo faz parte do cuidado. O Profissional precisa saber:

  • se você quer reduzir ou parar
  • se está desconfortável com a medicação
  • se já interrompeu o uso sozinho
  • quais sintomas surgiram após a suspensão

Mesmo que você já tenha parado por conta própria, buscar ajuda permite reorganizar o tratamento e reduzir riscos, ajustando o processo da forma mais segura possível.

Quando buscar orientação profissional

É fundamental procurar o psiquiatra se houver:

  • sintomas intensos ou persistentes após a redução
  • dúvida se o que está sentindo é retirada ou recaída
  • insegurança sobre como continuar o desmame
  • impacto importante na rotina ou no bem-estar

A ciência mostra que desmames acompanhados são mais seguros, melhor tolerados e geram menos sofrimento.

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Dra Natalia Soledade

Dra. Natália Soledade é médica psiquiatra formada pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (2005), com especializações práticas em psiquiatria pela Residência Médica do Complexo Hospitalar Psiquiátrico do Juquery (2007) e no Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência – SEPIA (2008).

Atende presencialmente em São Paulo e também oferece consultas online. Mãe de menino, apaixonada por viagens e jogar tênis, a Dra. Natália une experiência clínica à sensibilidade de quem valoriza cada história pessoal.

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