O que é a polilaminina? E como impacta na psiquiatria?

A polilaminina é uma molécula sintética inspirada na laminina, proteína presente na matriz extracelular do sistema nervoso. Ela foi desenvolvida por pesquisadores liderados por Mayana Zatz com foco inicial na regeneração após lesão medular.

A proposta é oferecer um suporte estrutural capaz de estimular o crescimento de neurônios e a extensão de axônios, favorecendo a reorganização de circuitos neurais. Em modelos experimentais, a polilaminina demonstrou potencial para auxiliar na reconexão de vias interrompidas após lesão da medula espinhal.

Ainda se trata de pesquisa em fase experimental, sem aplicação clínica consolidada. O impacto maior está no conceito científico que ela reforça.

O cérebro e a neuroplasticidade

Neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de modificar sua organização estrutural e funcional ao longo da vida. Isso inclui formação de novas conexões sinápticas, fortalecimento ou enfraquecimento de circuitos existentes e adaptação a lesões ou experiências ambientais.

Esse princípio é central tanto na reabilitação neurológica quanto na psiquiatria moderna. O cérebro não é estático. Ele responde a estímulos, tratamento, aprendizado e ambiente.

Polilamininaconecta à psiquiatria?

Transtornos psiquiátricos envolvem alterações na conectividade entre regiões cerebrais. Depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e TDAH não são apenas desequilíbrios neuroquímicos. Há evidências de alterações estruturais e funcionais em redes neurais responsáveis por regulação emocional, tomada de decisão, memória e atenção.

Na depressão, por exemplo, estudos mostram redução de volume em áreas como o hipocampo e alterações na conectividade do córtex pré-frontal. Em transtornos relacionados ao estresse crônico, observa-se impacto direto sobre circuitos ligados à resposta emocional.

Grande parte dos tratamentos atuais já atua, direta ou indiretamente, na neuroplasticidade. Antidepressivos, psicoterapia baseada em evidências, estimulação magnética transcraniana e uso de cetamina em depressão resistente estão associados a mudanças na conectividade e na reorganização de redes neurais.

A polilaminina insere uma nova camada nessa discussão porque atua na base estrutural do crescimento neural. Embora ainda não haja aplicação psiquiátrica dessa molécula, o conceito que ela representa é relevante. Se a ciência consegue estimular reconexão em lesões físicas do sistema nervoso, amplia-se o debate sobre futuras estratégias que possam favorecer reorganização de circuitos envolvidos em transtornos psiquiátricos.

Polilaminina no futuro da saúde

Não se trata de afirmar que a polilaminina tratará transtornos psiquiátricos. Isso ainda não existe. O ponto central é outro: a psiquiatria caminha cada vez mais para uma compreensão baseada em redes neurais e plasticidade cerebral.

A discussão deixa de ser apenas sobre neurotransmissores isolados e passa a envolver arquitetura funcional do cérebro. A descoberta reforça a ideia de que intervenções futuras podem combinar química, estimulação neural e estratégias que favoreçam reorganização estrutural.

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Dra Natalia Soledade

Dra. Natália Soledade é médica psiquiatra formada pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (2005), com especializações práticas em psiquiatria pela Residência Médica do Complexo Hospitalar Psiquiátrico do Juquery (2007) e no Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência – SEPIA (2008).

Atende presencialmente em São Paulo e também oferece consultas online. Mãe de menino, apaixonada por viagens e jogar tênis, a Dra. Natália une experiência clínica à sensibilidade de quem valoriza cada história pessoal.

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