Vício em jogos: como identificar?

O vício em jogos deixou de ser apenas uma preocupação de pais e passou a ser um tema central na Saúde mental. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde reconheceu oficialmente o gaming disorder como um transtorno relacionado ao comportamento digital, caracterizado por perda de controle, incapacidade de interromper o jogo e prejuízos significativos na rotina.

Mas a ciência mostra algo importante: nem todo jogador é dependente, e existe uma diferença clara entre o uso saudável e o uso problemático. Estudos recentes ajudam a enxergar o quadro com mais precisão.

O que a pesquisa mais recente mostra sobre vício em jogos

Um estudo publicado no Computers in Human Behavior em 2025 comparou três grupos não jogadores, jogadores recreativos e pessoas com risco de vício em jogos. Os resultados mostram dois cenários muito distintos.

Jogadores recreativos apresentam benefícios cognitivos

O grupo de uso saudável teve melhor desempenho em atenção e controle inibitório.
Tarefas como Go/No-Go, que avaliam foco e capacidade de evitar respostas impulsivas, mostraram resultados superiores em jogadores recreativos.

Outras pesquisas, como as de Bavelier na Nature Reviews Neuroscience, reforçam que jogos de ação podem melhorar atenção, velocidade de processamento e tomada de decisão.

Pessoas com vício em jogos apresentam prejuízos cognitivos

No estudo de 2025, indivíduos com risco de dependência tiveram pior desempenho em memória de trabalho, cometeram mais erros em tarefas que exigem adaptação rápida e apresentaram maior impulsividade nas respostas.

Pesquisas com neuroimagem publicadas em Addiction Biology mostram alterações no córtex pré-frontal em pessoas com dependência de jogos, região ligada ao autocontrole e planejamento.

A privação de sono, comum em gamers problemáticos, também contribui para piorar esse quadro.

Por que algumas pessoas desenvolvem vício em jogos?

A dependência de jogos surge a partir de uma combinação de fatores emocionais, cognitivos e comportamentais. Entre os mais comuns estão:

Recompensa constante

Jogos liberam dopamina de forma rápida e repetida, criando um ciclo de busca por estímulos que se torna cada vez mais difícil de interromper.

Fuga emocional

Pesquisas da American Psychiatric Association mostram que muitos adultos e adolescentes usam jogos para lidar com ansiedade, solidão, estresse escolar ou problemas familiares.

Traços pessoais

Impulsividade, dificuldade de regulação emocional e baixa tolerância à frustração aumentam o risco de uso problemático.

Alterações no sono

Quando a pessoa joga até tarde, o ciclo de sono se desregula, o humor piora e o controle inibitório diminui, intensificando comportamentos compulsivos.

Como saber se o vício em jogos está acontecendo?

Segundo diretrizes da OMS e da APA, alguns sinais merecem atenção.

Sinais emocionais e comportamentais

  • Irritabilidade quando não pode jogar
  • Perda de interesse em outras atividades
  • Necessidade de jogar cada vez mais para sentir o mesmo prazer

Impacto na vida social

  • Isolamento
  • Queda no rendimento escolar ou profissional
  • Negligência de responsabilidades e compromissos

Sinais físicos

  • Alterações no sono
  • Fadiga frequente
  • Dores de cabeça
  • Piora na alimentação e no autocuidado

Quando o jogo ocupa o espaço que deveria ser destinado ao descanso, aos relacionamentos e às responsabilidades, é importante considerar ajuda profissional.

Como melhorar o uso e quando buscar ajuda

Mudanças práticas ajudam a recuperar o equilíbrio.

Criar limites de tempo

Estabelecer horários claros e evitar jogar antes de dormir diminui riscos.

Priorizar o sono

A higiene do sono é uma das primeiras estratégias terapêuticas indicadas em casos de uso excessivo.

Entender o que o jogo substitui

Muitas vezes o jogo entra para aliviar ansiedade, tédio, sensação de incompetência ou solidão.

Buscar apoio especializado

Psiquiatras e psicólogos ajudam a identificar padrões, tratar sintomas associados como ansiedade ou depressão e criar estratégias de regulação emocional. Estudos indicam que o tratamento precoce melhora a função cognitiva e reduz recaídas.

O que a ciência conclui até agora

Jogos podem favorecer habilidades cognitivas quando usados de maneira saudável.
Mas quando se tornam fuga, compulsão ou causam prejuízos na rotina, há sinais claros de impacto negativo no cérebro e no comportamento.

Tratar o vício em jogos não significa interromper o prazer de jogar. Significa recuperar equilíbrio, restaurar o sono, reorganizar emoções e retomar o controle sobre o próprio tempo.

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Dra Natalia Soledade

Dra. Natália Soledade é médica psiquiatra formada pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (2005), com especializações práticas em psiquiatria pela Residência Médica do Complexo Hospitalar Psiquiátrico do Juquery (2007) e no Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência – SEPIA (2008).

Atende presencialmente em São Paulo e também oferece consultas online. Mãe de menino, apaixonada por viagens e jogar tênis, a Dra. Natália une experiência clínica à sensibilidade de quem valoriza cada história pessoal.

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